Por quê o paulistano corre?

Paulistano é mais apavorado que baiano quando chega na capital. Baiano pode ser sossegado e marcha-lenta lá na terrinha dele, mas quando chega numa cidade grande e vê aquele monte de gente e de carros fica doido.

Minha avó era baiana e nunca perdeu um ônibus ou trem na vida. Quando ia viajar, não importava que a viagem estivesse marcada para as 3 da tarde, levantava às 5 da madrugada “para arrumar as coisas”. E mesmo se fosse uma viagem de 2 dias era uma montanha de malas.

Já viu baiano com pouca mala? Que nada, era uma mala com remédio pra tudo quanto era doença que um ser humano pode ter fora de casa, uma com lanche “pra comer durante a viagem”, uma com roupas e sapatos velhos (pras crianças da tia), uma com as roupas e sapatos de cada pessoa que fosse viajar. E era uma troca para cada dia, uma para o caso de fazer calor, uma para o caso de esfriar, uma se por acaso chovesse, uma para terremoto e outra para furacão. No fim dava tanta mala que era capaz de alguém nos abordar perguntando qual era o preço daquela mala vermelha ali.

Quando chega na cidade grande, baiano vem com aquele monte de mala e umas 4 ou 5 crianças, mais a mulher e uma cunhadinha de uns 13 anos. Quando entra no ônibus é aquela correria e aquela gritaria: “Corre, Fulano!”, “Cuidado com a porta, Beltrana!”, “Olha o degrau!”, “Segura no braço desse menino!”, e tudo aos berros como se o mundo fosse acabar.

Paulistano é ainda pior. Mesmo sabendo que em menos de 3 minutos vai passar outro trem do metrô, desce a escada (que já é rolante) aos trambolhões e saltos, empurrando quem estiver na frente, pulando por cima do corrimão, só pra se enfiar por aquela portinha antes daquele apito que anuncia que ela vai fechar. E pra quê? Se tem horário pra chegar, por quê não sai de casa 15 minutos mais cedo?

Hoje deu dó dos apressadinhos. Estou sossegada no Terminal esperando o tróleibus pro Jabaquara. O ônibus vem e pára uns 10 metros pra frente do ponto. Isso já foi suficiente pra que saíssem da fila os “paulistanos da gema”, correndo que nem doidos, atropelando quem estava pela frente pra se enfiarem feito sardinhas no ônibus abarrotado.

Os mais sossegados como eu permaneceram na fila. O ônibus da frente fecha as portas mas não sai, vem outro igualzinho (e vazio) e pára bem atrás. Entramos sossegados olhando para a cara de pastel dos que estavam no ônibus da frente. Bem feito, quem mandou ser apressadinho?

Paulistano tem tanta pressa que no apavoramento de não perder a condução toma até ônibus errado. Outro dia estou sentada perto da porta do ônibus e vem de lá um doido subindo as escadas pulando os degraus de dois em dois e salta ofegante pra dentro do ônibus antes que a porta se feche, me olha e pergunta:

– Esse é o Jabaquara?

Com a cara mais limpa do mundo digo “não” e ele começa a esmurrar a porta antes que o ônibus saia, e tudo aos berros de “vai descer, vai descer” até que o motorista abre a porta e ele pula pra fora sob o olhar de reprovação de todos os passageiros. Assim que a porta se fecha de novo eu boto a cara na janelinha e pergunto inocentemente:

– Você perguntou se esse aqui é o Jabaquara?

Ele faz que sim com a cabeça.

O ônibus já vai saindo quando eu emendo:

– Esse aqui é o Jabaquara.

Havia esquecido de dizer, paulistano que se preza corre que nem doido não se sabe porque. E também dá informação errada.

(Zailda Mendes)

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