A melhor da turma

Logo que passei pelo portão do colégio fui atropelada pela Anália, que era a mais estressadinha da turma. Ela me segurou pelo braço e parecia desesperada. Suas pupilas estavam dilatadas e os olhos pareciam querer saltar das órbitas, de tão esbugalhados. Mal pude entender quando ela me perguntou, a voz saindo junto com meio litro de baba, que ela costumava espelir abundantemente quando estava muito nervosa:

– Estudou pra prova?

Prova, que prova? – pensei eu. E se a Anália estava nervosíssima eu estava apavorada quando balbuciei:

– Não estou sabendo de prova nenhuma.

– A prova bimestral de matemática!

Aquilo foi como um bombardeio em meu estômago, que se contraiu dolorosamente sobre o parco desjejum que eu tomara naquela manhã. Começaram a tremer-me as pernas, os braços, os dentes se chocavam uns nos outros e eu mal podia conter o pavor. Fui obrigada a confessar às colegas aflitas que não poderia ajudá-las com meus escassos conhecimentos dessa vez.

A prova seria depois do recreio, de forma que entre uma aula e outra eu dava uma passada d’olhos no caderno, tentando decorar as complicadas fórmulas e entender aquelas famigeradas cifras. Quando o sinal que anunciava a temida aula tocou, nos entreolhamos assustadas antes de partir para a sala de aula, em silêncio e de cabeça baixa, como o boi quando vai para o matadouro.

Na prova fiz o que pude e pelo que pude estudar até que estava fácil, mas eu não tinha muitas esperanças. Depois da aula comentamos, desalentadas, como tínhamos nos virado durante aquele amargo episódio. Fomos para casa, cabisbaixas, esperando o dia do anúncio das notas e do resultado do exame.

Enfim chegou o temido dia, o professor (que era um dos raros que tínhamos, em sua grande e esmagadora maioria eram freiras) entrou com um calhamaço de provas corrigidas na mão e isso acabou com nossas esperanças de que ele tivesse sofrido um acidente ou que sua casa tivesse ardido em chamas – queimando assim aquela papelama inútil.

Antes de dar as notas ele começou um discurso que ouvimos com o coração na mão e absolutamente paralisadas. Nossos piores temores se concretizavam:

– Como o resultado das provas foi muito abaixo do esperado, vou entregar as provas e dar as notas em voz alta, porque aqui parece que ninguém estudou nada.

E começou a ladainha:

– Fulana… zero. Beltrana… zero.

E assim ia chamando as alunas e a cada nome e a cada prova era um zero. Logo no princípio aquilo foi aterrador, mas à medida em que os zeros iam se sucedendo algumas alunas começaram a dar risinhos, já se conformando com a situação.

Quando a pilha já estava quase acabando, chamou nossa “crânio” em matemática:

– Agnes… quatro.

Que horror, ela conseguiu um quatro – pensei. E então me dei conta que ainda não recebera minha prova, que seria a última. Mas antes nosso professor resolveu terminar o sermão que iniciara.

– Eu ia anular essa prova, mas depois mudei de idéia por causa dessa prova – fez questão de deixar claro.

Por causa dessa prova. E essa frase me assombrou os sonhos durante muitas noites de minha vida.

Ainda estávamos lá, pasmas, sen entender nada quando ele então trovejou:

– Zailda… dez.

O caminho de minha carteira até a mesa do professor foi um dos caminhos mais difíceis que já percorri até hoje em minha vida. Enquanto avançava na direção da mão que me estendia com aquele maldito pedaço de papel, milhões de coisas passavam por minha cabeça. E principalmente que por eu ter tirado dez a prova não seria anulado, portanto minhas colegas todas ficariam com nota zero no boletim.

Essa foi a primeira vez que um sucesso meu prejudicou outras pessoas, pessoas essas que eram minhas amigas, e que jamais entenderam como eu pude tirar um dez se disse que não sabia nada e portanto não as ajudei a estudar antes da aula. Se alguma delas estiver lendo essa crônica, espero que agora entenda e, mesmo que tardiamente, me perdoe.

(por Zailda Mendes)

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